sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

quem sou eu? onde estou? é bonito aqui?

A mentira tem pernas curtas, mas bem torneadas, como as de Lurdinha, por exemplo, minha prima e musa da lan house de Solidão, Pernambuco.

A mentira tem pernas curtas, mas é pra lá de sexy, usa um shortinho que só vendo, de parar a Rebouças, de fechar o comércio.

A mentira é só um modo menos doloroso de se editar a vida, um corte, uma linguagem, diz um amigo que não sai da sua gelada ilha de edição nem para ir ao banheiro.

Democrática, a mentira nasceu para todos como o sol dos trópicos.

Mente o católico e o evangélico também mente ao dizer que esse mal jamais sairia da sua boca. Mente o judeu, mente o árabe da Faixa de Gaza e só não mente o homem-bomba porque não volta para contar a história.

O macho mente, mas mente muito melhor a fêmea, ela tem a manha, o esmero, o escopo, a marcenaria da coisa, o dom de iludir como na canção de Noel & Vadico, a treta, o apuro, a língua, o domínio.

De tanto abusarmos da moça de pernas curtas, nós, os marmanjos, banalizamos tal prática, nos entregamos pelo olho, pelos trejeitos, mesmo quando se trata da mentira mais sincera.

Se for jornalista o sujeito, nooossaa, só deixa de mentir quando artista morto, como na música de Fred 04.

É isso mesmo, até os melhores exemplares da raça masculina cometem as suas trapaças, dissimulações, subterfúgios, maquiagens na face da quase sempre insuportável realidade. Do presidente da corte superior ao trombadinha. A diferença é que uns ainda coram, enquanto outros nem se incomodam com as faces infestadas por cupins.

Todo esse nariz de cera, esse lero-lero da cumeeira dessa crônica, para dizer que folheei dia desses, na espera do dentista, "101 mentiras que os homens contam _e por que elas acreditam" (ed. Ediouro), da norte-americana Dory Hollander, um clássico da psicologia barata. Aliás, nem no dentista foi, o fato deu-se no consultório do homeopata, quer dizer, no analista...

Minto. Comprei mesmo o livro no sebo, por dever de ofício, e o devorei, olhos de traça. Que mentira que lorota boa, seu escriba de meia tigela, seu Zelig, que fica inventando desculpas para as leituras mais vagabundas.

Dane-se, comprei, li e gostei, pronto.

Melhor assim. E quer saber, é um clássico da psicologia popular universal. Está para a fofoca de salão como "A Interpretação dos Sonhos" [by Freud] está para a psicanálise. São frases que podem ser ditas tanto em Manhattan como no sertão do Crato. Dona Hollander fez uma pesquisa séria, ouvindo muita gente, sobre nossas mentiras, nem sempre sinceras, e nossas piores promessas.

Vai de um inocente "estou cansado demais" a um irresponsável "eu te amo" _dito na hora errada à mulher errada, no lugar errado". Começo, meio e fim e a nossa cuca ruim, como na canção do príncipe Ronnie Von.

Por que elas acreditam, entonce? A psicóloga arrisca respostas. Uma delas: as mulheres acham que ceticismo e romantismo não podem andar juntos, sob pena de estragar as coisas.

Dona Hollander nos separa em dois blocos: os perigosos e, digamos, aéticos, que abusam da mentira, que enganam por "esporte e lucro", de forma inescrupulosa como donos de bancos; os mentirosos ocasionais, que se mostram dissimulados sob pressão e desviam a realidade com pequenas lorotas, artifícios para se livrar da "fúria feminina" etc.

Nessa categoria estão também aqueles que poderíamos chamar de canalhas líricos, inocentes galanteadores como o Bertrand Morane do filme "O homem que amava as mulheres".

Seja qual for a sua classificação, a leitura pode ser feita de forma séria e compenetrada, na linha auto-análise, ou apenas como um delicioso chiclete para a mente, ora. À guisa de tira-gosto, ficam ai algumas casquinhas e caldinhos das nossas melhores mentiras captadas pela autora:

"As únicas fantasias sexuais que tenho são com você".

"Você é maravilhosa, merece alguém melhor do que eu".

"Relaxe, é apenas uma amiga".

"Vou deixar minha mulher".

"O que me atrai em você é a sua mente".

"Não, não acho você gorda".

Xico Sá, escritor e jornalista, colunista da Folha, autor de "Chabadabadá - As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha" e mais 10 livros. Na TV, participa do programa "Saia Justa" no canal GNT. (Texto extraído do blog O carapuceiro)
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Era mentira: o mundo não ia acabar... Malditos mexicanos! Por bem não acreditei muito e não saí passando a mão em qualquer um nem comprando iPhones 5 à vista muito menos consumindo todo o estoque de pizzas congeladas do freezer. Nãããão... ninguém me engana!...

Mentira, sou bobinho como só!...

Mentira, mas também prefiro acreditar numa lorota inocente a fazer picuinha por nulidades!...

Mentira.

(Texto inspirado pela crítica de "As Aventuras de Pi" no http://www.cinepop.com.br/criticas/as-aventuras-de-pi_101.htm)
(Mentira)

8 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

Q delícia este texto eim? sabe q eu tb adoro estas perninhas torneadas e curtas? de qdo em vez elas são necessárias e saudáveis ... eu acho ...

Mas uma coisa eu não minto nunca ... Gosto do Edu ardo e estou com saudades dele, mesmo q o ADzinho fique com ciumes qdo digo isto ... kkkk

bjão

M. disse...

Gostei muito.

bons textos....

bjs Edu

Anônimo disse...

Se a verdade é relativa, logo... Penso que as mentiras, de alguma forma, descrevem algo da realidade que nos cerca. Alguém disse (não lembro quem) que há 3 tipos de mentira: as mentiras, as estatísticas e as mentiras sagradas. Não levando em conta as duas primeiras, que costumam se desfazer facilmente, as do terceiro tipo não são o oposto da verdade. Talvez reflitam mais os sonhos... por aí. Divaguei demais (rsrsrs).

FOXX disse...

fiquei imaginando quem tinha mentido pra vc pra te deixar tão puto.

Unknown disse...

Interessante sua interpretação, Foxx. Mas não estava/estou nem um pouco puto com nada não, muito pelo contrário. Tô pimpão! :-)

Raphael Martins disse...

Um dos melhores posts do ano, viu ? lol

Bit disse...

Ah.. a mentira.

Acho que no fim da jornada do sábio, ele vai conseguir parar de mentir, principalmente para sí mesmo.

Escreve muito bem. =]

Foxx disse...

mas é porque seu texto ficou um tanto quanto... agressivo... não sei se essa é a palavra correta, mas é como se alguém tivesse te deixado bem irritado com algo e vc tava desabafando.