sexta-feira, 22 de junho de 2012

isso te interessa?


então notei que os olhares se dirigiam a um dos passageiros daquele ônibus.

não todos ao mesmo tempo, só volta e meia eu captava alguém imaginando uma história para aquela, percebi então, cicatriz que nos sorria a todos na parte de trás da sua cabeça!

a senhora bondosa pensava "tadinho! deve ter sofrido alguma queda quando criança, se machucado bastante". o estudante imaginou "isto deve ter causado seqüelas no controle motor fino ou no movimento visual" e no instante seguinte perguntou-se "será que ele é vesgo?" da mocinha sem coração só consegui extrair um "que bunda! e com cicatriz! cafajeste gostoso, quero dar minha xana pra ele..." 

ninguém olhava a cabeça muito fixamente nem por muito tempo - eram pensamentos de uns segundos e logo cada um dos passageiros voltava a conversar com seus próprios problemas. menos a mocinha sem coração mas esta fixava na bunda do rapazote e, agora, na marca da calça, dos sapatos e tentava adivinhar seu saldo bancário.

próxima parada, novos passageiros, e recomeça a brincadeira: o hippie, desligado, exclamava "companheiro! sofreu nas mãos dessa polícia truculenta a mando do governador fascista!" pra em seguida mudar de idéia "hmmmm... tá bem vestido... calhorda!! aposto que mereceu a paulada, yuppie da direita! viva o brasil!!!" outra mocinha romanceava "qual será a cicatriz que ele leva em seu coração?" e compunha toda a sua história de menino carente do interior que veio pra cidade grande, apaixonou-se e perdeu. mas tampouco deixou de molhar-se com a bunda gostosona, afinal glúteos másculos e coxas bem torneadas são impossíveis de não notar. a dona-de-casa, mãe de um filho drogado e esposa de um marido alcoólatra, resmungou "deve fazer racha! um daqueles malucos no volante que me assustam de madrugada!". 

o passageiro com a cicatriz, absorto a tudo isso, só pensava no arroz doce que o aguardava na geladeira.

9 comentários:

Mabe disse...

Começar a sexta, lendo isso....não tem preço!
Muito bom, Edu...adorei. Tá de parabéns!!!

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Crônica de um cotidiano! Edu ... vc é bom nisto ... investe mais ... já já vamos ter mais um blogueiro publicando seus escritos ... falo sério viu? Adorável ...

Wans disse...

Sabe o que me lembrou? De quando as pessoas encaravam o Melo na rua e eu me incomodava. Tadinho, ele pensando em outras coisas, provavelmente sexo ou comida, e outras pessoas se perguntando se ele tinha cancer ou se resolveu raspar por vontade própria. Enfim, mas o foco aqui é esse texto bacanudo. Eu não conseguiria ter idéias ou não saberia como pô-las no papel ou na tela do computador. Ficou ótimo!

bjão e have a nice weekend.

Anônimo disse...

"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com fatos reais terá sido mera coincidência" ou não!

Lucas disse...

Lindão mesmo! Isso me lembra aquela “teoria” de que somos uma história que construímos sobre nós mesmos, dia a dia, como num eterno rascunho inacabado e infindo. Estendendo o conceito... todos somos as histórias que todos escrevemos mutuamente. Em uns a melhor história nem é a que ele próprio escreve sobre si... vai entender...

Beijos.

Anônimo disse...

Nunca nos julgamos da maneira como nos julgam, ou interpretam!
Quem tem olhos MESMO, vai acabar percebendo!
Como é que o povo acha vc enigmático eu jamais vou entender!
Bjs no meu amiguinho

Margot disse...

Eu gostei do texto.... já li várias crônicas no estilo. Vc realmente leva jeito Edu...
Abraços e bom fds

Diego Hatake disse...

E por fim, todo mundo olhando para a bunda do rapaz, coitado... XD Zueira! Hugs!

Júlio César Vanelis disse...

O que façar sobre essa crônica, sr. Edu? Supimpa! E não é porque gosto de você, ou porque gosto de crônicas, ou porque gosto de bundas bonitas... Você escreve "Supimpamente" bem. Como bem disse a Margot, vc leva jeito Edu!

Beijos pra você... Até o próximo!