Esta semana fomos buscar os móveis (usados mas em ótimo estado e de ótima qualidade) que Mamãe comprou (por um ótimo preço, considerando-se o conjunto de rack+painel para tv, mesa+4 cadeiras, sofá) de um casal aqui do meu prédio que está de mudança.
Bem, o sofá não saiu do apartamento!
Grande demais, não passou pela porta. Entrou desmontado e agora não saiu. Sugeri que a Mamãe pedisse ao tapeceiro ali de baixo que viesse dar uma olhada. Mas a Irmã fez melhor: chamou Papai, também tapeceiro (de mão cheia, até Mamãe reconhece!) pra fazer o trabalho. E ele suou em bicas pra desmontar o trem e remontar no apartamento delas, mas no final deu tudo certo e gostamos de saber que um daqueles sofás, novo, não sai por menos de R$ 2500 e que ele cobra R$ 1500 só pra reformar um igual. Esse foi o valor do "pacote" todo.
Conto essa história porque nunca tivemos uma boa relação com o Pai. Alcoólatra, ausente (saía antes das 6 e voltava depois das 0h), o maior tempo que passávamos juntos era em padarias, de madrugada, com ele já alterado pela bebida, apenas pra evitar que ele brigasse com a Mãe. E aí era 1 hora dele falando mal da família (dela) toda, e dela também. Isso durou ano, ano e meio, até que nos mudamos. Também depois, por um tempo, aturávamos a mesma coisa nas visitas nem tão semanais. Até que nos afastamos completamente por uns outros anos.
Mas de minha parte nunca houve raiva. Pela ausência, embora o sinta como "pai" não temos mesmo afinidades. Falta papo. Faltam gostos em comum. Experiências em comum. Irmã investiu mais (filhas geralmente se ligam mais e portanto sentem mais a falta de um pai?) e por isso também brigou mais enquanto que eu sempre manti um contato (principalmente telefônico) cordial. Foi uma puta surpresa, então, saber que Irmã não apenas tinha voltado a falar com ele (isso tem umas semanas) mas que ela (e Mãe) "liberou" a vinda de meu Pai aqui onde moramos e em seu apartamento!
Claro que a Mãe ficou no meu a tarde toda enquanto Irmã e Pai lidavam com o sofá.
Hoje meu pai mora com uma outra mulher e os filhos (pequenos) dela. Ele sempre foi um cara bacana e bem quisto no bairro e continua um cara bacana quando não bebe. Diz ter parado de beber e de fumar há um tempo e eu não duvido que tenha conseguido. Fiquei feliz, portanto, com esse avanço no relacionamento dele com a Irmã e agora me sinto à vontade pra convidá-lo para uma pizza aqui em casa, uma noite dessas! Ou várias noites daqui em diante. Torcendo para que realmente tenha deixado a bebida porque assim as feridas cicatrizarão mais em definitivo, espero.
Meu Pai é o motivo de eu não beber e nem querer aprender a fazê-lo ou tomar gosto pela coisa. Irmã bebe umas boas cervejas, sem grilos. Eu não quero - esse é o meu único "trauma" dessa problemática toda, acredito. Claro que eu convivo relativamente bem com quem bebe (ou seria um ermitão nas montanhas) mas sinceramente me entristeço e me preocupo algumas vezes, em algumas ocasiões.
Eu sei que existem milhões de maneiras de entorpecimento neste mundo: drogas injetáveis, inaláveis, sexo, bebida, comida, consumismo, narcisismo, meditação, religião e um sem fim de maneiras de buscar aquela dose extra de serotonina, adrenalina e qualquer outra ina. Mas eu perdi o meu Pai para o álcool durante toda minha vida e este ano também perdi dois grandes, importantes amigos pelo mesmo motivo.
Sobre o "seu Lazinho" não é que eu acredite que recuperaremos aquilo que nunca tivemos: uma relação de Pai e Filho. Mas se eu puder manter com mais frequência e proximidade algo respeitoso e até carinhoso, será algo muito bom para mim. E para ele. E para a Irmã.
De repente não é "recuperar", é "construir".
Tomara!
7 comentários:
Muito bacana este depoimento Edu! Tomara q vc consiga construir esta relação ... Só para constar, eu tive problemas sérios de relacionamento com uma de minhas irmãs ... até q um dia brigamos de vez e ela saiu de casa ... foi um trauma ... o tempo passou, a vida deu voltas e nos reencontramos ... nos reaproximamos e não recuperamos mas construímos uma relação q não tínhamos tido a vida toda ... pena q a vida foi traiçoeira e qdo estávamos neste processo ela adoeceu e morreu ... mas foi bom o q construímos ... aprendi pacas com ela no processo de doença/morte dela ... cuidei dela até o último instante da vida ... um resgate total ... Agradeço a Deus e à vida por esta oportunidade ...
bjão
É, ermão, você tem uma proteção extra, um anjo que resolveu não deixar você nem encostar em bebidas. Mas, tirando esse papo “careta” (que você conhece), se puder, tente construir alguma coisa de verdade. Sempre é tempo e uma oportunidade dessas não costuma aparecer muitas vezes. Eu não tive tempo.
Texto lindo Edu! Vc realmente me surpreende...
boa! se vc tentar recuperar realmente não vai conseguir. não existe nada a recuperar. mas construir, isso sim, vc pode construir inclusive um relacionamento q esteja dentro dos seus parâmetros agora q vc já é homem feito (hehehe). boa sorte, meu caro! boa sorte!
Pela primeira vez o título do post cassou bem..rs
Meu pai também foi alcoólatra Edu...por toda a vida de casado..48 anos. Minha mãe irmãs/irmãos e eu por menos tempo, sofremos toda uma vida com isso. Até que por consequência do álcool, ele se foi. Não é algo bom a se lembrar... apesar de que tinha sim, seus momentos de pai. Meus irmãos(alguns)ainda não aprenderam a lição e outros com muito custo e dor.
Fazer o que? Cada um escolhe sua senda.
Mas fico feliz de as portas estarem abertas a Lázaro...antes tarde, do que nunca. Façam dar certo.
Beijos
De repente não é "construir", é "re-construir"!
E talvez esse sofazão seja bem mais emblemático do que aparece né?! Desmontar, Montar novamente, juntar forças, pedir ajuda, ...
Um grande abraço!
Muy lindo texto. Se nota que te salió de las entrañas.
Mi padre también bebía, aunque no siempre. Pero las veces
que llegaba borracho era un problema.
Así y todo, fue el cigarrillo que lo mató. Le tenían prohibido
fumar y lo hacía a escondidas.
No tuve con él un buen relación. No era mala tampoco, solo distante.
Ojalá puedas construir con el tuyo un lindo vínculo.
Abrazo!
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